Você faz coisas enquanto dorme e não lembra? Entenda as parassonias

Falar durante o sono, sentar-se na cama, caminhar pela casa, ter pesadelos intensos ou até realizar movimentos inesperados durante a noite. Para algumas pessoas, essas situações acontecem ocasionalmente e podem parecer apenas curiosidades do sono. Para outras, podem ser sinais de um distúrbio que merece investigação.
Esses comportamentos fazem parte de um grupo chamado parassonias, que reúne diferentes manifestações indesejáveis ou incomuns que podem ocorrer durante o sono.
De acordo com o livro Nosso Sono – Nossa Vida, organizado pelo pneumologista Dr. Eduardo Garcia, as parassonias estão entre as principais categorias de distúrbios do sono reconhecidas pela classificação internacional.
Mas afinal, por que algumas pessoas apresentam esses comportamentos? E quando é necessário procurar ajuda?
O que são parassonias?
As parassonias são eventos comportamentais ou experiências que acontecem durante o sono, durante a transição entre o sono e a vigília ou ao despertar.
Elas podem ocorrer em diferentes fases do sono e apresentam manifestações bastante variadas.
Entre elas estão:
sonambulismo;
terror noturno;
despertares confusionais;
pesadelos;
paralisia do sono recorrente;
transtorno comportamental do sono REM;
falar durante o sono, conhecido como sonilóquio.
O livro Nosso Sono – Nossa Vida destaca que essas manifestações fazem parte de um grupo amplo de distúrbios, que podem ter características e mecanismos diferentes.
Isso significa que nem todo comportamento estranho durante a noite representa o mesmo problema e, justamente por isso, é importante observar como, quando e com que frequência ele acontece.

Sonambulismo: por que algumas pessoas caminham dormindo?
O sonambulismo é uma das parassonias mais conhecidas. Durante um episódio, a pessoa pode levantar-se da cama, caminhar, realizar determinadas ações e até falar, permanecendo parcialmente adormecida. Em muitos casos, ao despertar, ela não se lembra do que aconteceu.
O sonambulismo é classificado entre as parassonias relacionadas ao sono não REM. O livro também inclui nessa categoria os despertares confusionais e o terror noturno.
Um ponto importante é que episódios ocasionais não devem ser automaticamente interpretados como uma doença grave. Entretanto, quando são frequentes, provocam acidentes, interferem na rotina ou apresentam comportamentos de risco, a avaliação médica pode ser necessária.
Falar durante o sono é normal?
O chamado sonilóquio é a ocorrência de fala durante o sono. Algumas pessoas murmuram palavras ou frases curtas. Outras podem falar de maneira mais clara e até manter diálogos aparentemente coerentes — sem necessariamente estarem conscientes do que estão dizendo.
O sonilóquio aparece no livro como um dos sintomas isolados ou variantes que podem ocorrer durante o sono.
Por isso, falar dormindo ocasionalmente não significa, por si só, que exista um distúrbio do sono.
A situação merece mais atenção quando a fala aparece associada a outros comportamentos incomuns, movimentos intensos, episódios frequentes ou outras alterações durante o sono.
E quando a pessoa parece estar vivendo um sonho?
Algumas parassonias podem envolver comportamentos mais complexos.
O livro apresenta, por exemplo, o transtorno comportamental do sono REM, além dos transtornos de pesadelo e da paralisia do sono recorrente.
Essas situações são diferentes entre si e não devem ser confundidas.
No transtorno comportamental do sono REM, por exemplo, podem ocorrer movimentos e comportamentos associados ao conteúdo dos sonhos. Já a paralisia do sono é caracterizada por episódios em que a pessoa se percebe acordada, mas apresenta dificuldade ou incapacidade temporária de movimentar o corpo.
São experiências que podem ser assustadoras, mas que precisam ser compreendidas dentro do contexto clínico de cada paciente.
Quando um comportamento durante o sono merece investigação?
Uma das principais dificuldades na avaliação dos distúrbios do sono é que muitas vezes a própria pessoa não sabe exatamente o que acontece enquanto está dormindo.
Por isso, o relato de quem dorme próximo ao paciente pode ser muito importante.
Segundo o livro, informações fornecidas por familiares ou parceiros podem ajudar a identificar roncos, pausas respiratórias, engasgos, movimentos repetitivos das pernas, agitação e comportamentos inesperados durante o sono. Até mesmo vídeos feitos com o celular podem auxiliar o médico na compreensão do que está acontecendo.
Alguns sinais merecem atenção especial:
episódios frequentes ou que estão se tornando mais intensos;
movimentos que podem causar quedas ou ferimentos;
comportamentos agressivos durante o sono;
sair da cama e caminhar pela casa;
episódios acompanhados de outros sintomas de sono;
sonolência excessiva durante o dia;
prejuízo no trabalho, nos estudos ou nas atividades cotidianas;
situações que preocupam a pessoa ou quem dorme ao seu lado.
Nesses casos, o ideal é não tentar descobrir sozinho qual é a causa.
Nem todo comportamento estranho durante o sono é igual
Essa é uma das razões pelas quais uma avaliação especializada pode ser importante.
Distúrbios do sono podem ocorrer isoladamente ou associados a outras condições. Por isso, a investigação médica deve considerar não apenas o comportamento observado durante a noite, mas também os horários de sono, hábitos, uso de medicamentos, consumo de cafeína e álcool, rotina, exposição à luz, uso de telas e os impactos durante o dia.
Dependendo da situação, o médico poderá determinar se são necessários exames complementares.
A polissonografia, por exemplo, pode ser utilizada em situações específicas, inclusive na investigação de determinados comportamentos anormais durante o sono. O livro destaca sua utilização na investigação do transtorno comportamental do sono REM, entre outras situações.
O mais importante é entender o que o sono está dizendo
O sono não é simplesmente um período em que o organismo fica “desligado”. Durante a noite, diferentes processos fisiológicos acontecem de maneira organizada.
Quando surgem comportamentos incomuns, despertares recorrentes ou outras manifestações, o primeiro passo é entender o que está acontecendo e por quê.
Nem todo episódio exige tratamento. Mas comportamentos frequentes, intensos ou que oferecem risco não devem ser ignorados.
Se você ou alguém próximo apresenta comportamentos incomuns durante o sono e não sabe se eles são normais, uma avaliação especializada pode ajudar a esclarecer a situação e indicar o melhor caminho.
Cuidar do sono também é cuidar da saúde.
Fonte
GARCIA, Eduardo (org.). Nosso Sono – Nossa Vida. Porto Alegre, 2024. Obra distribuída pela Sonoclin – Clínica de Estudos do Sono.




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